APRENDIZ DE COZINHEIRO
Quem já passou por Itajaí e se aventurou a perguntar por uma comida bem elaborada e diferente, já ouviu falar do Arroz à moda de Braga do Aldir.
O que muita gente não sabe é de onde surgiu esta delícia no cardápio do Aldir, um renomado cozinheiro daquela cidade costeira.
Pois muito bem. Beto (Norberto Vieira), proprietário da Confecção Chaplin, de Blumenau, freqüentava, lá em Itajaí, uma patota que se reunia uma vez por semana, nas Quintas-Feiras, a semelhança de nossos stammtische. A intenção dos convivas era celebrar a amizade, beber uns tragos e bater papo. A cada semana, dois integrantes do grupo eram responsáveis pela apresentação de um prato que seria degustado por todos.
Beto já se sentia constrangido com o fato de nunca ter sido solicitado a arcar com aquele compromisso. Como era de Blumenau, diziam os freqüentadores, sua presença já era o suficiente e ademais, exigir que viesse mais cedo para Itajaí a fim de preparar-lhes a comida, parecia, ao grupo, uma descortesia para um convidado tão freqüente e tão bem vindo.
O tempo foi passando e, por insistência do próprio Beto, acabaram por ceder. Escalaram-no para aderir ao rol de cozinheiros da patota. Seu companheiro seria o Paulo Figueira, reconhecidamente um expert em cozinha.
Bom pro Beto que sequer sabia fritar um ovo.
O que não contava, porém, é que seu companheiro o colocaria contra a parede :
- “Óia aqui, Beto. Só vou fazer o papel de ajudante. Tu mandas e eu faço”.
Tinha que se virar. Não podia dar vexame.
A solução foi apelar para a “maitré” de cozinha que tinha em casa. Sua esposa, Aparecida, a Cida, além de excelente cozinheira, adorava aquele ofício.
E foi nessa que o Beto sugeriu o seu delicioso “arroz à moda de Braga”. Tinha tudo a ver com o gosto dos itajaienses. Desafio aceito, Cida escolheu um dia para ensinar a seu pupilo o passo-a-passo daquela iguaria portuguesa.
Cuidadosamente, Beto foi anotando tudo, tim-tim por tim-tim. Ao final, a degustação comprovava a idéia. O prato seria um sucesso.
Cheio de confiança, colinha no bolso, lá foi o Beto cumprir seu papel de gourmet.
Comprou todos os ingredientes, proporcionalmente ao número de integrantes da patota e acresceu mais uns 20%, tudo conforme as orientações de sua mestra.
Foi uma noite angustiante. O grupo não permitia, em hipótese alguma, a interferência de estranhos, a solicitação de conselhos ou mesmo uma cola. Para chegar ao fim, Beto foi “urinar” umas dez vezes. Não que tivesse vontade, tinha que fazer consultas frequentes à cola que trouxera.
Prato pronto, servido e …. Surpresa! Ficou uma delícia, como se tivesse sido a própria esposa quem o fizera. Elogios, palmas e uma série de assédios dos cozinheiros de plantão para que lhes ensinasse os macetes. Beto, entretanto se fez de rogado:
- “Um grande maitré tem seus segredos que não podem ser revelados”.
Saiu incólume, com a promessa de voltar a fazê-lo um dia.
Malandro velho, Beto abriu espaço em sua carteira para a colinha da receita.
- “Um dia, quem sabe…teria que estar pronto”, dalava com seus botões.
O tempo passou, Beto voltou muitas outras semanas ao grupo, até que um dia, encontrou-se casualmente com o Aldir:
- “Beto, tens que me ensinar como se faz aquele prato”. Sem cerimônia, e com a promessa prévia de que não contaria a ninguém, Beto sacou da cola, ainda guardada na carteira e passou-a ao Aldir.
E foi assim, que o famoso “Arroz à moda de Braga” entrou como uma opção daqueles que, em Itajaí, quisessem experimentar aquela especiaria da culinária lusitana.
- “Até hoje, o Aldir ganha dinheiro com aquela iguaria, quando alguém o contrata para cozinhar”, palavras do próprio Beto.
Amor, Paz e Bem, que não custa nada a ninguém,
Luiz Eduardo Caminha