Cadê a Plaquinha, pô!!!
Luiz Eduardo Caminha
Lembram do tempo em que a ex-Telesc*, a Celesc* e o Samae*, interrompiam o trânsito das calçadas (ou mesmo das ruas) quando tinham que trabalhar nas galerias? - aqueles buracos com uma tampa de aço de uns 80 cm de diâmetro? Lembram quando estas empresas colocavam uns cones unidos entre si por correntes de ferro ou de plástico e umas plaquinhas penduradas com os dizeres “HOMENS TRABALHANDO”?.
Pois é! Esta história aconteceu, naquela época, com um amigo do peito que me relatou e autorizou escrevê-la para a diversão de nossos leitores. E só aconteceu porque a tal plaquinha, segundo o protagonista, não havia sido colocada no lugar. Bem, mas deixa prá lá e vamos à história.
Do alto de seus 1,65m de altura, nosso protagonista é o grande amigo, (primo do novo Papa Bento XVI – brincadeira!) joalheiro e relojoeiro Celso Bento da Silva, que nasceu com vocação para ser Santo, pois já é Bento, e... da Silva!
Celso foi um grande zagueiro na juventude - naqueles tempos em que tamanho não era documento. Sonhava, intimamente – ninguém desconfiava - ser titular do seu time de coração o Palmeiras Esporte Clube, de Blumenau, e quem sabe um dia, do Avaí, o Leão da Ilha, lá da capital, time que nutria uma simpatia especial nos tempos de Acácio, Piseta, Cavalazzi, entre outros. Orgulhava-se quando em peladas, lá por Itajaí ou Ilhota, os manézinhos, de estatura beeeeeem menor, diziam uns para os outros:
~ Cuida do alemão, ali ó!
É, meus amigos. Naquela época o Celso já se aventurava a dar uns cabeceios na área adversária, quando em um ou outro escanteio. Era o elemento surpresa. Saia de sua defesa, postava-se na boca da área e quando a “redonda” vinha, se projetava acima dos manés e, de vez em quando faturava um golzinho. Sonho?! Mentira?! Que nada, meus amigos. Só prá vocês terem idéia de como era o futebol da época é só lembrar do Sombra, ex-Paula Ramos e Marcílio Dias, meio campo da Seleção Catarinense. Era mais baixo que o Celso. Querem outro? O Nica, Nicolau dos Santos, um dos sócios fundadores do Bela Vista, mais baixo que o Celso e grande estrela do Avaí. Até o Dida e o Babá, que juntos de Henrique formaram o infernal ataque flamenguista de 1957-61, eram mais baixos que o Celso. Tá certo! Tá certo! A diferença era só um a dois centímetros, mas que eram mais baixos, lá isso eram. Todos eles!!!
Mas, voltemos à nossa história.
Pois num dia qualquer de uma semana incerta, há tempos atrás, manhã bem cedo, calor de verão, Celso saiu da joalheria e dirigiu-se à sapataria do Borba.
Sua intenção, além da praxe diária de jogar conversa fora e ouvir as últimas do Borba, era fazer um furo a mais num cinto de couro que comprara no dia anterior, numa liquidação da Casa dos Alfaiates, na rua XV de Novembro.
~ Sabe como são estas promoções! Na vitrine, modelos que encantam os olhos a preços fora de série. Lá dentro, parece uma cisma, nunca têm o nosso número, comenta Celso.
Esperto e já prevendo uma barriguinha futura que ampliasse sua protuberância abdominal, fruto de muito chope e comilanças, na falta de seu número, Celso comprou um número maior. Depois, era passar no Borba, e o problema estaria resolvido. Fácil, fácil!
E foi no que deu. Com a peça nas mãos, Borba tascou mais três furos, um para o abdome atual do cliente e outros dois para o futuro tonel que infalivelmente viria a se concretizar.
Em seu retorno à joalheria, Celso vinha distraído examinando o trabalho levado a efeito pelas mãos habilidosas do sempre amigo, disposto e sorridente sapateiro, quando aconteceu : Catapimba!!! Tal qual aquelas imagens do Flash Gordon (antiga esta não ? – quase da idade do Celso!), em que seres sumiam desintegrados pelos alienígenas, o Celso sumiu. Isto mesmo, literalmente falando, o baixinho sumiu em plena calçada.
Da joalheria, a funcionária incrédula, à porta, gritava :
- “Corram! Corram! O seu Celso caiu no buraco!!!
Foi um corre-corre danado em direção ao local do acidente. Do outro lado da rua, o pessoal reunido no Marreta para o tradicional bate-papo do cafezinho atravessou, às pressas, a Rua Floriano Peixoto. Não pensavam apenas em socorrer a vítima. Não!!! Melhor que estivesse ilesa, com vida. Seria motivo de gozação por muito tempo.
A funcionária esbaforida, continuava em altos berros :
~ O seu Celso sumiu, acudam! O seu Celso sumiu no buraco da calçada!
O baixinho, que já era assim bem antes de ser inventada a Kaiser, não contava com aquilo!
No meio de seu caminho, a Companhia Telefônica trabalhava nos seus cabos subterrâneos. Um funcionário desavisado e desleixado descera à galeria deixando escancarada a tampa de aço que lhe dera acesso. E nem sequer lembrara-se, o incauto, de colocar os cones, as correntinhas e a plaquinha de aviso. Resultado, faltou chão para o distraído Celso que sucumbiu, buraco abaixo.
À cena cômica, juntou-se um diálogo mais hilariante ainda.
Lá embaixo, o técnico da telefônica, um corpulento representante da raça negra, enorme como um armário, trabalhava agachado. Ao receber pelas costas aquele volume de gente, exclamou surpreso:
~ O que o senhor veio fazer aqui?!!
De bate-pronto, um Celso ofegante e apavorado, coração saindo pela boca, retrucou:
~ Cadê a plaquinha, porra!!! Cadê a merda da plaquinha?!”.
Estava indignado, furioso com o fato de a Companhia Telefônica não ter isolado o local com as habituais placas de serviço que serviam, exatamente, para chamar a atenção dos transeuntes.
Por sorte, Celso que tinha uma compleição física atlética e praticava esporte, ao perceber a falta de chão, num reflexo de frações de segundo, jogou os braços para frente e segurou-se na borda do buraco. Com o corpo inteiro já dentro da galeria e impulsionado pela queda, seu peso foi projetado para frente, como num movimento de balanço. Ato contínuo, viu seus dedos escorregarem e ... pimba!
~ Puta merda! Lá se foi o Celso! ~ imaginou.
Teve sorte. A presença do funcionário, serviu como um colchão para a queda.
Antebraços ralados mas o corpo inteiro, Celso foi o primeiro transeunte a experimentar um meio salto mortal, sem rede, no cadafalso da galeria de serviço subterrâneo da Companhia Telefônica. Assunto, sem dúvida para um mês de troças e brincadeiras no café do Marreta.
Houve até quem aventasse a possibilidade de incluí-lo no Guiness Book. Coisa que o Luís Antônio Soares ficou de providenciar mas, até hoje, não conseguiu porque, segundo dizem, não existe esta modalidade de salto nos registros do famoso Livro de Recordes.
* Siglas de duas Companhias Estatais Estaduais, a Telesc – Companhia Telefônica de Santa Catarina e a Celesc – Centrais Elétricas de Santa Catarina e de outra Municipal, a Samae – Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto.