O Causo deste Mês vem em DUAS versões: "com sotaque" e "sem sotaque".

Boa leitura.


 

Eta Cachaça Boa !!! (versão sem sotaque)

Luiz Eduardo Caminha

 

 

Era dia de rabada, feita pelo Jorge Müller, nos terças-feirinos do Bela Vista Country Club, em Blumenau, Santa Catarina, lá no sulzinho do Brasil (Grupo Terça a Todo o Vapor). Dia de rabada é dia de muita gordura e para diminuir os efeitos nocivos do colesterol, há que se quebrá-los com uma boa cachaça, antes e depois da comilança e da beberagem.

 

Todo mundo sabe, lá no Bela Vista, que o Baldur Hass é campeão na produção de uma cachaça velha, que é guardada a sete chaves e servida como gotas preciosas, em verdadeiras doses homeopáticas, apenas e tão somente aos amigos, em datas muito especiais.

Pois dia de rabada é uma destas datas especiais e o amigo Baldur não esqueceu de trazer um litro da sua pinga mais velha.

 

E foi sorvendo esta iguaria servida aos deuses do Olimpo e esculpida por este verdadeiro artista das artes culinárias, entre um gole e outro da malvada, que perguntei ao amigo Baldur como ele conseguia fazer uma cachaça tão saborosa.

 

-          Ach! Ach! Du mann!!! “Isto tudo é muito fácil, Caminha”, começou respondendo com aquele sotaque alemão carregado, “já, já eu te explico”.

 

-          “Primeiro tu tem que escolher um pedaço de chão, de mais ou menos três por quatro metros, no quintal da tua casa. O bom é um terreno bem firme. Se for de pitão, melhor ainda”.

 

-          “Depois tu cavas no chão, um buraco de uns dois metros de altura.”

 

-          “Então tu fazes uma escada para ter acesso lá de cima, do chão, até o fundo do buraco”.

 

-          “Daí, tu reveste as paredes do buraco. Pode ser com massa de cimento e areia, se a terra for de pitão, ou tu podes fazer uma parede de pedra. O importante é que o lugar fique bem fresco”.

 

-          Terminado o buraco tu fazes um estrado de dois andares, para sete barris de carvalho. Se tu quiseres 50 litros de cachaça, uma vez, então tu compras sete barris de 50 litros. Se tu quiseres 100 litros, uma vez. Então tu compras sete barris de 100 litros. Eu tenho sete barris de 250 litros. Assim, cada vez, eu tenho 250 litros de cachaça velha”.

 

-          “Agora, tu tapas o buraco. Pode ser um tapume de madeira coberto de telhas de barro, ou então tu podes fazer um rancho por cima, sempre com cobertura de telha de barro”.

 

-          “Pronto!!! Agora tu já tens uma adega!!! Lá em casa, minha adega fica num buraco que eu fiz dentro da minha oficina de guardar ferramentas!!!

 

-          O próximo passo é tu comprar uma cachaça boa, nova, de melado da cana, que seja alambicada em alambiques de cobre. Os alambiques de inox não prestam porque não retêm muito calor e por isso a cachaça não fica bem queimada.

 

-          Eu, por exemplo, só compro cachaça do Van Bylaard, lá do Alto Serafim, no município de Luís Alves. Qualquer dia destes, a gente combina e vai lá, prá tu conhecer como se faz uma boa cachaça. Só pra tu ter idéia, o Van Bylaard só usa a parte do corpo da cachaça, a cabeça, mais forte, e o rabo, mais rala, ele despreza. Outra coisa, ele curte o melado da cana em tinas grandes de madeira e o resfriamento é feito usando a água do ribeirão que é puxada por uma roda d’água. Olha, vale a pena ir lá só pra ver. Mas tem que ser num dia que a gente não tenha compromisso depois. 

 

-          Agora toma cuidado! Tem muita gente por aí, lá em Luís Alves inclusive, vendendo cachaça “feita na região”, que na verdade vem das destilarias de São Paulo. Só recebem o rótulo aqui, uma vez!!!

 

-          Bem, depois disto tudo, é só tu encher o primeiro barril, deixar em repouso por dois anos. Aí tu já tens uma cachaça de dois anos.

 

-          Daí, tu transfere esta cachaça para o segundo barril.

-           

-          Agora tu vai lá e compra de novo outra cachaça para encher, novamente, o primeiro barril que vai estar vazio.

 

-          “Assim você vai fazendo, a cada dois anos e, então no final de mais ou menos uns 14 anos, tu tens pronta uma cachaça velha e de boa qualidade”.

 

-          “Ach!! Tem uma coisa que eu esqueci e que tu precisas saber. É um macete que tu não podes esquecer senão tu ficas sem nenhuma cachaça.”

 

-          “O barril de carvalho perde todo ano, por evaporação, mais ou menos uns 10% da cachaça. Então, é importante que  cada ano tu pegas um pouco de cachaça, que tem que ser  da mesma procedência e completas cada barril. Eu costumo fazer isto a cada seis meses mais ou menos”.

 

-          É só isso!!! “Fácil, não”?!! Interrogou-me com aquele olhar meio esbugalhado de tremendo gozador.

 

Bem, sou obrigado a concordar que não é tão fácil assim se fazer uma cachaça velha. Ainda bem que existem pessoas com a paciência do Baldur, para que possamos continuar a degustar preciosidades desta natureza. Ainda mais quando o prato é uma rabada.

 

Então tá! Fica assim, definitivamente respondida minha dúvida inicial. É desse jeito que se faz uma boa cachaça velha. Quem tiver coragem e paciência, a fórmula está dada.

 

-          Eta cachacinha boa, gente!!!

 

 

 

 

 

 

Eta Cachaça Boa !!! (versão com sotaque)

Luiz Eduardo Caminha

 

Era dia de rabada, feita pelo Jorge Müller, nos terças-feirinos do Bela Vista Country Club, em Blumenau, Santa Catarina, lá no sulzinho do Brasil (Grupo Terça a Todo o Vapor). Dia de rabada é dia de muita gordura e para diminuir os efeitos nocivos do colesterol, há que se quebrá-los com uma boa cachaça, antes e depois da comilança e da beberagem.

 

Todo mundo sabe, lá no Bela Vista, que o Baldur Hass é campeão na produção de uma cachaça velha, que é guardada a sete chaves e servida como gotas preciosas, em verdadeiras doses homeopáticas, apenas e tão somente aos amigos, em datas muito especiais.

Pois dia de rabada é uma destas datas especiais e o amigo Baldur não esqueceu de trazer um litro da sua pinga mais velha.

 

E foi sorvendo esta iguaria servida aos deuses do Olimpo e esculpida por este verdadeiro artista das artes culinárias, entre um gole e outro da malvada, que perguntei ao amigo Baldur como ele conseguia fazer uma cachaça tão saborosa.

 

-          Ach! Ach! Du mann!!! “Isto tudu muito fácil, Caminha”, começou respondendo com aquele sotaque alemão carregado, fazendo um movimento com a mão, de cima para baixo, como se aquilo fosse uma coisa banal “xá, xá eu tishplico”.

 

-          “Primeiro tu tem que escolher um pedaço de chon, de mais ou menos três por quatro metrrros, no quintal da tua casa. O pom é um tereno bem firme. Se for de pitão, melhor ainda”.

 

-          “Depois tu cavas no chon, um burrrraco de uns dois metros de altura.”

 

-          “Então tu fazes uma escada para ter acesso lá de cima, do chon, até o fundo do burrraco”.

 

-          “Daí, tu reveste as parredes do burrrraco. Pode ser com massa de cimento e areia, se a tera for de pitão, ou tu podes fazer uma parede de pedra. O importante é que o lugar fique bem fresco”.

 

-          Terminado o burrrraco tu fazes um estrado de dois andares, para sete parris de carvalho. Se tu quiseres 50 litros de cachaça, uma veiz, então tu compras sete barris de 50 litros. Se tu quiseres 100 litros, uma veiz. Então tu compras sete barris de 100 litros. Eu tenho sete barris de 250 litros. Assim, cada veiz, eu tenho 250 litros de cachaça velha”.

 

-          “Agora, tu tapas o burrrraco. Pode ser um tapume de madeira coberrrto de telhas de paro (barro), ou então tu podes fazer um rancho por cima, sempre com cobertura de telha de paro”.

 

-          “Prrronto!!! Agora tu já tens uma adega!!! Lá em casa, minha adega fica num burrrraco que eu fiz dentro da minha oficina de guardar ferramentas!!!

 

-          O próximo passo é tu comprar uma cachaça boa, nova, de melado da cana, que seja alambicada em alambiques de cobre. Os alambiques de inox non prrrestam porque não retêm muito calor e por isso a cachaça non fica bem queimada.

 

-          Eu, por exemplo, só compro cachaça do Fan Bylaard, lá do Alto Serafim, no município de Luís Alves. Qualquer dia destes, a xente combina e vai lá, prá tu conhecer como se faz uma poa cachaça. Só pra tu ter idéia, o Fan Bylaard só usa a parte do corrrpo da cachaça, a cabeça, mais forrrte, e o rabo, mais rala, ele despreza. Outrrra coisssa, ele curte o melado da cana em tinas grandes de madeira e o resfriamento é feito usando a água do ribeiron que é puxada por uma roda d’água. Olha, fale a pena ir lá só pra ver. Mas tem que ser num dia que a xente não tenha compromisso depois. 

 

-          Agora toma cuidado! Tem muita gente por aí, lá em Luís Alves inclusive, fendendo cachaça “feita na region” que, na verdade, vem das destilarias de São Paulo. Só recebem o rótulo aqui, uma veiz!!!

 

-          Bem, depois disto tudo, é só tu encher o primeiro parril, deixar em repouso por dois anos. Aí tu xá tens uma cachaça de dois anos.

 

-          Daí, tu transfere esta cachaça para o segundo parril.

-           

-          Agora tu fai lá e compra di novu outra cachaça para encher, novamente, o primeiro parril que vai estar vazio.

 

-          “Assim tu vai fazendo, a cada dois anos e, enton no final de mais ou menos uns 14 anos, tu tens pronta uma cachaça velha e de boa qualidade”.

 

-          “Ach!! Tem uma coisa que eu esqueci e que tu precisa saber. É um macete que tu non pode esquecer senon tu ficas sem nenhuma cachaça.”

 

-          “O parril de carvalho perde todu ano, por evaporaçon, mais ou menos uns 10% da cachaça. Então, é importante cada ano tu pegar um pouco de cachaça, que tem que ser  da mesma procedência, e completa cada parril. Eu costumo fazer isto a cada seis meses mais ou menos”.

 

-          É só isso!!! “Fácil, não”?!! Interrogou-me com aquele olhar meio esbugalhado de tremendo gozador.

 

Bem, sou obrigado a concordar que não é tão fácil assim se fazer uma boa cachaça velha. Ainda bem que existem pessoas com a paciência do Baldur, para que possamos continuar a degustar preciosidades desta natureza. Ainda mais quando o prato é uma rabada. Quanto ao sotaque, bem, este vai piorando na medida em que a língua vai enrolando.

 

Então tá! Fica assim, definitivamente respondida minha dúvida inicial. É desse jeito que se faz uma boa cachaça velha. Quem tiver coragem e paciência, a fórmula está dada.

 

-          Eta cachacinha boa, xende!!! Prosit!!!

 

TOPO

 

 

 

 


 

Causo

APRENDIZ DE COZINHEIRO

  

Quem já passou por Itajaí e se aventurou a perguntar por uma comida bem elaborada e diferente, já ouviu falar do Arroz à moda de Braga do Aldir.

O que muita gente não sabe é de onde surgiu esta delícia no cardápio do Aldir, um renomado cozinheiro daquela cidade costeira.

Pois muito bem. Beto (Norberto Vieira), proprietário da Confecção Chaplin, de Blumenau, freqüentava, lá em Itajaí, uma patota que se reunia uma vez por semana, nas Quintas-Feiras, a semelhança de nossos stammtische. A intenção dos convivas era celebrar a amizade, beber uns tragos e bater papo. A cada semana, dois integrantes do grupo eram responsáveis pela apresentação de um prato que seria degustado por todos.

Beto já se sentia constrangido com o fato de nunca ter sido solicitado a arcar com aquele compromisso. Como era de Blumenau, diziam os freqüentadores, sua presença já era o suficiente e ademais, exigir que viesse mais cedo para Itajaí a fim de preparar-lhes a comida, parecia, ao grupo, uma descortesia para um convidado tão freqüente e tão bem vindo.

O tempo foi passando e, por insistência do próprio Beto, acabaram por ceder. Escalaram-no para aderir ao rol de cozinheiros da patota. Seu companheiro seria o Paulo Figueira, reconhecidamente um expert em cozinha.

Bom pro Beto que sequer sabia fritar um ovo.

O que não contava, porém, é que seu companheiro o colocaria contra a parede :

- “Óia aqui, Beto. Só vou fazer o papel de ajudante. Tu mandas e eu faço”.

Tinha que se virar. Não podia dar vexame.

A solução foi apelar para a “maitré” de cozinha que tinha em casa. Sua esposa, Aparecida, a Cida, além de excelente cozinheira, adorava aquele ofício.

E foi nessa que o Beto sugeriu o seu delicioso “arroz à moda de Braga”. Tinha tudo a ver com o gosto dos itajaienses. Desafio aceito, Cida escolheu um dia para ensinar a seu pupilo o passo-a-passo daquela iguaria portuguesa.

Cuidadosamente, Beto foi anotando tudo, tim-tim por tim-tim. Ao final, a degustação comprovava a idéia. O prato seria um sucesso.

Cheio de confiança, colinha no bolso, lá foi o Beto cumprir seu papel de gourmet.

Comprou todos os ingredientes, proporcionalmente ao número de integrantes da patota e acresceu mais uns 20%, tudo conforme as orientações de sua mestra.

Foi uma noite angustiante. O grupo não permitia, em hipótese alguma, a interferência de estranhos, a solicitação de conselhos ou mesmo uma cola. Para chegar ao fim, Beto foi “urinar” umas dez vezes. Não que tivesse vontade, tinha que fazer consultas frequentes à cola que trouxera.

Prato pronto, servido e …. Surpresa! Ficou uma delícia, como se tivesse sido a própria esposa quem o fizera. Elogios, palmas e uma série de assédios dos cozinheiros de plantão para que lhes ensinasse os macetes. Beto, entretanto se fez de rogado:

- “Um grande maitré tem seus segredos que não podem ser revelados”.

Saiu incólume, com a promessa de voltar a fazê-lo um dia.

Malandro velho, Beto abriu espaço em sua carteira para a colinha da receita.

- “Um dia, quem sabe…teria que estar pronto”, dalava com seus botões.

O tempo passou, Beto voltou muitas outras semanas ao grupo, até que um dia, encontrou-se casualmente com o Aldir:

- “Beto, tens que me ensinar como se faz aquele prato”. Sem cerimônia, e com a promessa prévia de que não contaria a ninguém, Beto sacou da cola, ainda guardada na carteira e passou-a ao Aldir.

E foi assim, que o famoso “Arroz à moda de Braga” entrou como uma opção daqueles que, em Itajaí, quisessem experimentar aquela especiaria da culinária lusitana.

- “Até hoje, o Aldir ganha dinheiro com aquela iguaria, quando alguém o contrata para cozinhar”, palavras do próprio Beto.

 

 

Amor, Paz e Bem, que não custa nada a ninguém,

 

Luiz Eduardo Caminha

 

 

 


 

Causo

O MAIOR MENTIROSO
Luiz Eduardo Caminha

Esta me foi passada pelo Frank Karl Isberner, Ortopedista e membro do Stammtisch Blumenau.

Era noite de reunião do grupo, lá no BDI (Bar do Ivo). No balcão, enquanto preparavam as iguarias que seriam servidas no jantar, dois membros dos mais antigos batiam papo descontraídos. Como diz o descendente alemão: jogavam conversa fora. Ao lado dos dois, de pé no balcão, um sujeito estranho ao grupo, sorvia uma cerveja.

Papo de lá, papo de cá e um deles começou a contar vantagens sobre uma caçada de fim de semana, no sítio de um amigo, nas bandas das barragens de Rio dos Cedros.

~ “Foi uma maravilha, fulano! Matamos umas 8 pacas, 10 aracuãs, 2 nhambús e, de quebra, ainda dei um tiro numa onça pintada que, há algumas semanas, vinha infernizando os criadores da região atacando suas ovelhas. A bicha caiu estatelada. Um tiro só. Bem na cabeça”.

O estranho, fazendo-se de curioso, entrou na conversa :

“Mas ainda dá tanto bicho, assim, por lá? O que fizeram com os animais?”

Foi a deixa para o caçador continuar a lorota :

~ Ah! Sim, amigo!!! Lá ainda dá muita caça! Quanto aos bichos, a onça nós enterramos, prá não dar na vista. Sabe como é né?! Algum destes fiscais chatos do Ibama poderia surgir por lá e ficaria difícil de explicar a morte de um animal em extinção. O resto da bicharada nós comemos. Foi uma festa daquelas. Mês que vem vou lá de novo!!!

Foi quando o estranho se identificou e, carteira em punho – daquelas parecidas com as da Polícia Federal – foi falando alto e em bom tom:

~ “Vai lá coisa nenhuma! O Senhor sabe com quem está falando?”

E antes que o caçador reagisse, tascou na lata:

~ “O Senhor está falando com um fiscal do Ibama! Vou ter que prendê-lo por violar a lei de proteção dos animais”.

Silêncio geral! O outro membro do grupo, apenas interlocutor da história, tomou, de uma golada só, o copo cheio de cerveja que acabara de ser servido.

O caçador, impassível, nem se abalou. Encarou o estranho, olhou-o de cima a baixo e perguntou-lhe :

~ “E o senhor, seu fiscal, sabe com quem está falando?” Ante a surpresa do fiscal, completou às gargalhadas:

~“O Senhor está falando com o maior mentiroso deste Stammtisch!!!”.

Foi a melhor saída que encontrou para livrar-se da iminente ameaça.
 

 

 

 


 

Causo

Cadê a Plaquinha, pô!!!

Luiz Eduardo Caminha

 

 

Lembram do tempo em que a ex-Telesc*, a Celesc* e o Samae*, interrompiam o trânsito das calçadas (ou mesmo das ruas) quando tinham que trabalhar nas galerias? - aqueles buracos com uma tampa de aço de uns 80 cm de diâmetro? Lembram quando estas empresas colocavam uns cones unidos entre si por correntes de ferro ou de plástico e umas plaquinhas penduradas com os dizeres “HOMENS TRABALHANDO”?.

Pois é! Esta história aconteceu, naquela época, com um amigo do peito que me relatou e  autorizou escrevê-la para a diversão de nossos leitores. E só aconteceu porque a tal plaquinha, segundo o protagonista, não havia sido colocada no lugar. Bem, mas deixa prá lá e vamos à história.

 

Do alto de seus 1,65m de altura, nosso protagonista é o grande amigo, (primo do novo Papa Bento XVI – brincadeira!) joalheiro e relojoeiro Celso Bento da Silva, que nasceu com vocação para ser Santo, pois já é Bento, e... da Silva!

 

Celso foi um grande zagueiro na juventude - naqueles tempos em que tamanho não era documento. Sonhava, intimamente – ninguém desconfiava - ser titular do seu time de coração o Palmeiras Esporte Clube, de Blumenau, e quem sabe um dia, do Avaí, o Leão da Ilha, lá da capital, time que nutria uma simpatia especial nos tempos de Acácio, Piseta, Cavalazzi, entre outros. Orgulhava-se quando em peladas, lá por Itajaí ou Ilhota, os manézinhos, de estatura beeeeeem menor, diziam uns para os outros:

 

~ Cuida do alemão, ali ó!

 

É, meus amigos. Naquela época o Celso já se aventurava a dar uns cabeceios na área adversária, quando em um ou outro escanteio. Era o elemento surpresa. Saia de sua defesa, postava-se na boca da área e quando a “redonda” vinha, se projetava acima dos manés e, de vez em quando faturava um golzinho. Sonho?! Mentira?! Que nada, meus amigos. Só prá vocês terem idéia de como era o futebol da época é só lembrar do Sombra, ex-Paula Ramos e Marcílio Dias, meio campo da Seleção Catarinense. Era mais baixo que o Celso. Querem outro? O Nica, Nicolau dos Santos, um dos sócios fundadores do Bela Vista, mais baixo que o Celso e grande estrela do Avaí. Até o Dida e o Babá, que juntos de Henrique formaram o infernal ataque flamenguista de 1957-61, eram mais baixos que o Celso. Tá certo! Tá certo! A diferença era só um a dois centímetros, mas que eram mais baixos, lá isso eram. Todos eles!!!

 

Mas, voltemos à nossa história.

 

Pois num dia qualquer de uma semana incerta, há tempos atrás, manhã bem cedo, calor de verão, Celso saiu da joalheria e dirigiu-se à sapataria do Borba.

Sua intenção, além da praxe diária de jogar conversa fora e ouvir as últimas do Borba, era fazer um furo a mais num cinto de couro que comprara no dia anterior, numa liquidação da Casa dos Alfaiates, na rua XV de Novembro.

 

~ Sabe como são estas promoções! Na vitrine, modelos que encantam os olhos a preços fora de série. Lá dentro, parece uma cisma, nunca têm o nosso número, comenta Celso.

 

Esperto e já prevendo uma barriguinha futura que ampliasse sua protuberância abdominal, fruto de muito chope e comilanças, na falta de seu número, Celso comprou um número maior. Depois, era passar no Borba, e o problema estaria resolvido. Fácil, fácil! 

 

E foi no que deu. Com a peça nas mãos, Borba tascou mais três furos, um para o abdome atual do cliente e outros dois para o futuro tonel que infalivelmente viria a se concretizar.

 

Em seu retorno à joalheria, Celso vinha distraído examinando o trabalho levado a efeito pelas mãos habilidosas do sempre amigo, disposto e sorridente sapateiro, quando aconteceu : Catapimba!!! Tal qual aquelas imagens do Flash Gordon  (antiga esta não ? – quase da idade do Celso!), em que seres sumiam desintegrados pelos alienígenas, o Celso sumiu. Isto mesmo, literalmente falando, o baixinho sumiu em plena calçada.

 

Da joalheria, a funcionária incrédula, à porta, gritava :

 

- “Corram! Corram! O seu Celso caiu no buraco!!!

 

Foi um corre-corre danado em direção ao local do acidente. Do outro lado da rua, o pessoal reunido no Marreta para o tradicional bate-papo do cafezinho atravessou, às pressas, a Rua Floriano Peixoto. Não pensavam apenas em socorrer a vítima. Não!!! Melhor que estivesse ilesa, com vida. Seria motivo de gozação por muito tempo.

 

A funcionária esbaforida, continuava em altos berros :

 

~ O seu Celso sumiu, acudam! O seu Celso sumiu no buraco da calçada!

 

O baixinho, que já era assim bem antes de ser inventada a Kaiser, não contava com aquilo!

 

No meio de seu caminho, a Companhia Telefônica trabalhava nos seus cabos subterrâneos. Um funcionário desavisado e desleixado descera à galeria deixando escancarada a tampa de aço que lhe dera acesso. E nem sequer lembrara-se, o incauto, de colocar os cones, as correntinhas e a plaquinha de aviso. Resultado, faltou chão para o distraído Celso que sucumbiu, buraco abaixo.

 

À cena cômica, juntou-se um diálogo mais hilariante ainda.

Lá embaixo, o técnico da telefônica, um corpulento representante da raça negra, enorme como um armário, trabalhava agachado. Ao receber pelas costas aquele volume de gente, exclamou surpreso:

 

~ O que o senhor veio fazer aqui?!!

 

De bate-pronto, um Celso ofegante e apavorado, coração saindo pela boca, retrucou:

 

~ Cadê a plaquinha, porra!!! Cadê a merda da plaquinha?!”.

 

Estava indignado, furioso com o fato de a Companhia Telefônica não ter isolado o local com as habituais placas de serviço que serviam, exatamente, para chamar a atenção dos transeuntes.

 

Por sorte, Celso que tinha uma compleição física atlética e praticava esporte, ao perceber a falta de chão, num reflexo de frações de segundo, jogou os braços para frente e segurou-se na borda do buraco. Com o corpo inteiro já dentro da galeria e impulsionado pela queda, seu peso foi projetado para frente, como num movimento de balanço. Ato contínuo, viu seus dedos escorregarem e ... pimba!

 

~ Puta merda! Lá se foi o Celso! ~ imaginou.

 

Teve sorte. A presença do funcionário, serviu como um colchão para a queda.

 

Antebraços ralados mas o corpo inteiro, Celso foi o primeiro transeunte a experimentar um meio salto mortal, sem rede, no cadafalso da galeria de serviço subterrâneo da Companhia Telefônica. Assunto, sem dúvida para um mês de troças e brincadeiras no café do Marreta.

Houve até quem aventasse a possibilidade de incluí-lo no Guiness Book. Coisa que o Luís Antônio Soares ficou de providenciar mas, até hoje, não conseguiu porque, segundo dizem, não existe esta modalidade de salto nos registros do famoso Livro de Recordes.

 

 

* Siglas de duas Companhias Estatais Estaduais, a Telesc – Companhia Telefônica de Santa Catarina e a  Celesc – Centrais Elétricas de Santa Catarina e de outra Municipal, a Samae – Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto. 

 

 

 

 


 

Causo

FORTALEZA É AQUI!!!
Luiz Eduardo Caminha

Era uma manhã de Sábado do mês de Março do ano 2.000. As obras de reurbanização da XV haviam recém começado. Como todos os Sábados, na calçada da loja Sóphones, o Marcelino Campos (Stammtisch Freytag e Planetapéia) dispusera para seus clientes, uma chopeira com chope geladinho.

Ao redor da chopeira um grupo de amigos, deitava conversa fora. Presentes, o então Presidente da CDL Blumenau Arninho Bürguer (Stammtisch Candangos, Camarões, Locomotivas, Quadra 8 do Tabajara, e outros mais). Grande liderança do meio empresarial, aproveitava para deleitar-se com as obras de reurbanização, fruto, sem dúvida, de sua capacidade aglutinadora que fez por concretizar um velho sonho dos lojistas da Rua XV.

Chopinho prá lá, chopinho prá cá, surge um casal trajando bermudas e camisetas alusivas a Oktoberfest. Um chapéuzinho típico, vermelho, com penas laterais, as meias soquetes e o par de tênis novos, fizeram o diagnóstico: um casal de turistas que visitava nossa loira Blumenau.

Entusiasta da cidade, Arninho se aproximou, ofereceu um copo de chope, e deitou falação:

- “Vejam meus amigos, aqui em Blumenau é assim. Quando voltarem para sua cidade digam, para todos, que as ruas são limpas como um salão de igreja, a rua XV está sempre florida e o chope corre nas calçadas. De onde mesmo voces são?”, complementou o sorridente anfitrião.

- “Fortaleza!”, respondeu o rapaz.

- “Excelente cidade!!! Já estive lá algumas vezes!! Praias maravilhosas, muita lagosta, carne de sol, uma beleza!!!”.

- “Não, não moço!”, Nós somos daqui mesmo, de Blumenau. Do bairro Fortaleza!!!”.

Tóim! Tóim! Tóim!. Ao toque mental do sino que registrava a mancada, mais que depressa Arninho tentou emendar o soneto que ficara atravessado:

- “Tudo bem amigos. Então, quando vocês chegarem lá na Fortaleza, digam pros vizinhos que a Rua XV está ficando linda e que eles podem vir fazer suas compras, aos Sábados, que vai ter sempre um chopinho gelado para refrescar!!!”.

 


 

 


 

 

Causo

NERVO DE MOCOTÓ  
                  Luiz Eduardo Caminha


Era  uma  destas  5as. Feiras  de  rodada  do  Campeonato  Citadino de Bocha de Blumenau.
O  palco :  O  Complexo  de  Bocha  do  Bela Vista Country Club.  Presentes  os habituées  daquele  agradável  ambiente, sócios  do  clube, alguns  membros  do Stammtisch  Terça  a  Todo Vapor (Dienstag mit allen dampf) e toda a galera de aficcionados da bocha, além dos inveterados frequentadores da Sauna.
Aquele  dia  começara  cedo  para  o  Paulo Manfroni (Cachorrão)  e  o Toninho, ecônomo da Bocha. Desde as 8 horas, já tinha ido para a fervura (foram mais de 10 fervuras só para tirar o cheiro) as bengalas de cerca de 70  centímetros do mais puro e viril órgão genital externo de touro, que o Cachorrão trouxera de Pelotas.
Depois de  10  horas  de  fogo, para amolecê-las, foram uma a uma, cortadas em rodelas, tipo moedas, refogadas com cebola, tomate, cheiro verde, etc.  Mais duas horas e estavam prontas as rodelas daqueles órgãos que durante  anos despejaram milhares e milhares de espermatozóides, nas centenas de vacas de cria que, a cada cio, eram preparadas para a reprodução de terneiros  Nelore  do mais alto padrão. O  primeiro  prato,  para   despertar  os curiosos e bicões,  foi  servido  à  moda de aperitivo, com farinha, palitos e tudo mais. Aprovação geral!!! O que é isto? "Nervo de Mocotó", foi a melhor resposta que o Cachorrão encontrara.
Foram  muitos  os  pratos, com arroz,  no pão, na farinha,  só sobrou o fundo da panela. Ao final da comilança, beiços lambidos, a notícia : "Bem minha gente, o que voces comeram foi bilau de boi".
Entre os presentes, alguns confessaram ter admirado o  prato (muito comum nos pampas), outros ficaram furiosos com a brincadeira e  uns poucos  se  mostraram nauseabundos.
Sobrou para o Cachorrão.  Até  no  Conselho do Clube o assunto entrou na pauta de uma reunião. Resultado : Cachorrão suspenso da cozinhar, por 90 dias. Qualquer tipo de prato!  Ainda mais porque ante tanto ti-ti-ti,  o gaúcho velho já vinha prometendo outra : "Se gostaram tanto de bilau de boi, imagina só quando eu trouxer as das vacas!!!

"E, aí, aconteceu o inesperado: descoberta a trama do Cachorrão, quando 14 (quatorze) belos espécimes do mais puro órgão genital feminino de vacas girolândia chegaram aos freezers do Complexo da Bocha, o Presidente do Conselho deu uma ordem:
- Toninho, joga isto tudo fora!
Foi daí que, no Clube do Marreta, começou um zum-zum-zum, um buchicho, que correu a cidade toda: "tem uma turma, lá no Bela Vista, desse pessoal da bocha, que comeu a se regalar "bilau" de touro, mas quando foi prá comer o mais genuíno órgão feminino das vacas, jogou tudo fora antes de serem cozinhadas. Ainda bem que a turma da bocha salvou os terça-ferinos. Mas que ficou feio, lá isso ficou!!!

P.S. Em respeito às vítimas deste violento atentado ao pudor deixamos de publicar seus nomes!!! Mas que aconteceu, aconteceu. Nada disto é ficção!!!

 

 

 

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