|
Não esqueça de acessar nosso livro de visitas e deixar
sua opinião!
Se Eu Pudesse Pedir
Perdão
por Silas Correa Leite
Se eu pudesse pedir perdão... por alguma coisa, algum
motivo, alguma razão limpa, talvez pedisse ao meu querido
pai, principalmente por não tê-lo compreendido exatamente
como deveria, e poderia então, pra perdida sorte minha, ter
sacado muito bem e antes de sofrer tudo o que sofri; e teria
certamente evitado descaminhos, e talvez assim, de alguma
forma (doces memórias) e com revisitada imagem dele, os meus
destemperos doessem menos no meu peito entrevado, e agora eu
tivesse menos marcas das sinuosas trilhas, e assim eu
tivesse ainda mais plenamente as asas da saudade dele sobre
mim, como uma benção dos céus distantes.
Se eu pudesse pedir perdão... por alguma coisa, algum
motivo, alguma razão limpa, talvez pedisse perdão à minha
pobre mãe velhinha, principalmente por ter deixado o nosso
lar-doce-lar muito cedo, cedo demais (cedo para sempre) -
cortei minha infância pela metade - e caído afoito nas
garras de gavião do destino insano, e, em vez de aprender
com gestos, sanções, atitudes e eventuais surras de falácias
caseiras, as lágrimas dos céus me aconteceram bem mais cedo
do que eu pensava e esperava, e eu pude compreender (e posso
traduzir tristemente isso agora em banzos-blues), que o
amargurado que me tornei, além de algum eventual improviso
de jazz com solo de tristices, foi ter tomado peito muito
precocemente para enfrentar a barra de viver (a barra pesada
de viver), e ter caído no rocambole do mundo como um
inocente puro e simples, mesmo as mãos limpas, o peito
arfando, os olhos viçados, isto é, simplesmente uma frágil
folha de papel rasa em que a vida pôs a malvada
descompostura dela, o que me tornou também sofredor precoce,
depois refém da sensibilidade extremada, com muito déficit
afetivo, e eu lamentavelmente pude, assim, de alguma forma,
ser abatido, predado, sofrido, tornar-me - na fuga! na fuga!
- um poeta com sânscrita identidade de humildes como licor
de jabuticaba de terceira dimensão em realidade substituta.
Se eu pudesse pedir perdão... por alguma razão, loucura, ou
macadame de sofrência, eu pediria perdão às minhas adoráveis
seis irmãs, não apenas por tê-las amado tanto, mas por não
ter tido competência para tê-las defendido como deveria, e
também por não estar presente ainda mais como o outro seio
secreto delas, amparando as ocasionais angústias e perdas,
carregando as sobras de tantas tintas intimas das vaidades
exageradas delas, ou colhendo mais dos filhotes-sobrinhos
belos e abençoados que me deram quando eu era peregrino
fugidor, e por isso, intimamente por isso eu as amei muito,
amo-as mais do que posso traduzir, e as amarei muito além do
lar infinital do dono do sol, quando, finalmente e então, os
meus globos oculares já com saquinhos de chá sobre as
pálpebras inferiores disserem de meu quase um século de
vida, e eu poder dizer Adeus para ver o remanso do último
lírio selvagem da terra, e então poder ir, finalmente,
colher estrelas no campo de estrelas do céu com meu finado
genitor, porque, assim também, claro, no vislumbre do
reencontro, sei que na casa de meu pai há muitas moradas.
Se eu pudesse pedir perdão... de alguma forma, de alguma
maneira, em algum estágio e devão desse erradio caminho (de
caminheiro atiçado pela busca de um farol além da curva do
arco-íris), eu iria pedir também que me perdoassem tantas
coisas, nesse favo de inventário e partilha, a saber:
Um: Eu pediria perdão a
Todas as ruas de minha infância, principalmente aquelas com
terrinhas cor-de-rosa de minha descalça pegada íntima, na
liberdade de ser puro entre aurorais, encantários, ninhais,
e, claro, também, mandorovás, camaleões e fantasmas verdes
entre beronhas e formigas-saúvas
Dois: Eu pediria perdão a
Todos os quintais das casas de ciganos aonde morei, nessa e
em outras vidas antigas - ah a aurora que trago da infância!
- entre dormentes, trilhos, tatus, canteiros, pardais &
cidreiras, porque de eios de água brotaram imaginações
saradinhas como cuques de framboesas temporãs
Três: Eu pediria perdão a
Todos os milhares de livros que eu li, porque neles, pelo
menos assim em tempos de vacas magras, todos os finais eram
magnificamente felizes, o Crusoé era uma gaivota santa numa
ilha de nascentes limpas, e eu imaginava que, sendo eu
mesmo, sempre, teria santerias por atacado nas minhas
aventuras de atiçado, sensível, quase um sentidor da pá
virada
Quatro: Eu pediria perdão a
Todas as mulheres que eu amei, e que não me amaram, e que
assim e talvez por isso mesmo foram infelizes para sempre,
como um desculpa-livramento, um castigo-andaime, uma
solidão-palhaço, um prelúdio-talismã. Até porque, confesso,
o meu primeiro amor foi uma parede. Que eu trago e tenho
comigo, como um íntimo butim, como um alforje de estrelas
que despenco cada vez que escrevo. E eu escrevo para não
chorar. E eu faço poemas porque não sei morrer sozinho como
uma lesma cega cor de leite
Cinco: E pediria perdão por
Todos os malditos (..) sonhos que eu tive. Eu, tolo, achava
que ia crescer e mudar o mundo. Só os imbecis são felizes?
Primeiro queria ser presidente, depois poeta, afinal
restei-me educador. Como viram, nunca soube me escolher na
melhor parte do filé das víboras, nos tapumes dos chacais,
nos guizos dos incrédulos. Fui, (perdoem, cem por cento eu
mesmo e todo emocional) como um baú de estimas. Deus sabe
com quantas lágrimas faz o castelo de nossas idas e vindas
(não há perdão no esquecimento)
Seis: Eu pediria perdão a
Todos os inimigos, e circunstancialmente os tive em algum
lugar ou vareio de palavras, e que por algum motivo me
magoaram, me traíram como margens abruptas de um rio
inocente. Alguns eu perdoei como se perdoa um esquilo cego
por morder seu calcanhar de Aquiles, a outros eu acabei por
- moendas do estilo da vida nua e crua - a dar pão e água,
e, confesso, muitos eu matei tanto dentro de mim como um
surto-circuito, que eles mesmos se anularam com seus nós
íntimos, como cactos vítreos de rudezas pegajentas em clãs
espúrios
Sete: Eu pediria perdão a
Todos os anjos que me ajudaram, e que devem me perdoar mesmo
para muito além do eternamente, porque, aqui e ali, nalguma
curva do caminho, sem o saber, sem querer e mesmo sem
maldade, eu os abandonei entre um mata-burro, uma pinguela
ou um portal. E há lugares (o mundo sombra?) que anjos não
freqüentam. E eu atinado fui buscar candeeiro na boêmia,
troçando alhures (troféus de mixórdias), trocando flores por
cançonetas, amando tardes de chuvas e minguados afetos de
ocasião, quase purgando interioridades com primaveras que já
deram o que tinham de dar
Oito: Eu pediria perdão
Por todas as preces, todos os brancos lenços de adeuses (até
os escondidos), todos os poemas escritos na mais cuneiforme
intenção do refluxo do inconsciente - que é quando eu me
despojo, me decomponho, pondo a alma para respirar -
escrevendo de supetão o rebite de uma idéia, um ideal, entre
um copo de leite azedo, um mimo celestial ou uma pestilenta
tentativa de abismo que escrevendo evito um pouco
Nove: Eu pediria perdão
A todas as árvores que fui, de alguma maneira e por algum
motivo, medidas as proporções, de groselheiras secas a
laranjeiras sem guirlandas brancas, como se um dia, de
verdade eu tivesse sido alguma espécie de árvore, noutro
século, noutra encantação, e, por algum fruto proibido vim a
ser vetado de ser outra vez, depois espiritualmente perdi o
sagrado direito de tê-las comigo no DNA, e aqui me deixaram
em dimensão-placenta errada, não apenas como um castigo pro
carbono virar diamante, ou não, mas para como, tentativa de
cicatriz, eu de novo aprender a ser raiz, a ser copa, a ser
tronco, a ser pétala, a dar flores & frutos, tudo de novo,
tudo outra vez, como uma canga, um pesadelo vivido, no
arremate de uma alma superior cerzindo minhas perdas entre
ofícios testamenteiros e arrozais de desculpas com azedumes
terçãs
Dez, finalmente...
Eu pediria perdão, ainda, nesses meus dez
mandamentos-testemunho (?) de desalinho e dor (poetas não
têm peças de reposição), a àquilo que fui de alguma maneira,
por algum motivo, sem o saber, sem o querer, sem o poder,
mas identificando afinidades íntimas:
-Cardume: Por ter sido um pouco areal, um pouco atol, um
pouco rede, um pouco albatroz no mar de sargaços da vida,
então paguei a duplicata da perda a ser isso também me
serviu como lima nova em ferrugens adquiridas
-Tempestade: Por ter navios fantasmas em mim, ser
sobrevivente de naufrágios abismais, trazer estranhas marcas
disso, fui isso e me feri de ver o que provoquei em ira
insana, atemporal, obedecedor involuntário de desastres e
tragédias
-Chuva de abril: Por saber que nada me pertence, nada do que
me foi dado é gratuito, tudo tem um preço e eu não acredito
em valores a não ser o lado pérola da ostra, por isso pago
dobrado esse crime de existir em Nau Catarineta errada, indo
e vindo, carpinteiro das águas no teatro de absurdo dos
ciclos que jamais dominarei
-Cisterna: Porque ainda tenho lágrimas para tornear poemas
por séculos e séculos, não tendo medida para a minha
tristeza terreal, e nem me sabendo livro aberto em página
errada, assim nunca poderei ordenar à dor que saia para
sempre de mim, mesmo que eu ande pelo vale da sombra da
morte...
-Deserto: Porque sou solitário como uma nave sideral pirata
clonada de outra banda cósmica, e solitário me tenho como
ser espúrio em vinagre vencido e injusto dessa existência
pagã, então escrevo para não ficar louco, escrevo porque o
meu cálice transborda e ninguém tem piedade por eu ser como
porta-lapsos em núcleo de paradoxos
-Eco: Tudo o que sou, soa alto e claro, o que não sou, não
sabendo inteiramente me assusta (cacos do espelho), então eu
peço perdão por ter amado de repente quem não devia, dito
adeus quando era para ficar estagiário, aprendido ser leitor
de tudo quando deveria ser plantador de campos de lavandas
em outros mundos em que a morte não existe.
-Barco encalhado: Isso eu sou e serei por muito tempo, mesmo
não tenho ainda inteireza do que isso me representa ou me
servirá, até porque, em frente ao mar eu me sinto o próprio
mar, como se a mãe-natureza me fizesse carbono do sal
marinho, depois gaivota número um, depois ilha de areia,
depois pobre foca, até que eu perdesse asas ou guelras, até
que eu pudesse nadar e ser átomo, esporo, pólen, e chover na
horta da espécie humana com seu bezerro de ouro, entrando
então pela porta dos fundos da existência só para exatamente
pôr o dedo nessa ferida acesa que é o tão mal conjugado
verbo viver
E, por fim, perdoem musas e boêmios, perdoem anjos e
vigiadores de quarteirão, eu me resto aqui um aprendiz de
tudo, entre um vazio e o vácuo, criando borboletas de
palavras, sendo sempre um homem fora do meu tempo.
Quando eu era piá de tudo, amava estar com os idosos tão
sábios. Agora que estou quase velho, adoro lidar com
crianças.
Sempre achei, aliás, que iria morrer muito cedo e criança.
Espero morrer criança com quase cem anos.
E que Deus tenha piedade de nós.
À bença, Mãe. Ave Estância Boêmia de Itararé.
Porque Hoje é Sábado, aviso aos incautos navegadores de
primeira hora: Bolinhos de chuva encharcam com cervejas
bentas, e criam mais tecido adiposo nas vaidades herdadas.
E-mail:poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net
*Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design
À venda no site:
www.livrariacultura.com.br
Comente
Não esqueça de acessar nosso livro de visitas e deixar sua
opinião!
volta
|
|
|
|
Stammtisch na História

Conheça a história da tradição em Blumenau
e no mundo. |
|
|
|

Receitas Maravilhosas
da Culinária Germânica, regional e internacional
Clique para ver!
|
|
|
|
|
|