SE A GENTE NÃO ESQUECE O GOL
DE GIGHIA
Na
segunda metade do século XIX , o segundo país mais
poderoso do mundo era aqui na América do Sul. Duvidam?
Peguem um bom livro de História das Américas e dêem uma
olhada. Era um país onde as coisas funcionavam com a
sincronia de um relógio: cheio de indústrias, inclusive
metalúrgicas e as demais consideradas de ponta naquela
época, e qualquer cidadão daquele país de um momento
para outro de agricultor ou industriário se transformava
em soldado, e o país tinha um exército impressionante.
Dou um chicletes para quem adivinhou o nome do país: o
Paraguai.
A maioria de vocês levou um susto, não levou? Foi bem
isto que a primeira potência do mundo da época, a
Inglaterra, levou, quando se deu conta que cá num lugar
perdido na América do Sul, alguém tinha passado a fazer
sombra a ela. O susto foi tão grande que ela maquinou
rapidamente, e botou nós, brasileiros, mais os
argentinos e os uruguaios numa guerra contra o Paraguai,
onde, pode-se dizer, aquele país foi destruído. Uma
geração inteira de homens morreu - os números e as
crueldades são impressionantes. Até hoje aquele pequeno
país que já foi tão grande não conseguiu se reerguer, e
o brasileiro tem a mania de morrer de rir de tudo o que
é do Paraguai, como se tudo o que viesse de lá fosse
coisa inferior. Uma vez, quando lá, sentei-me uma tarde
inteira numa praça, a ouvir alguns paraguaios falarem da
sua mágoa do Brasil, não magoazinha boba, nascida de
piadas bobas – mágoa séria, coisa de quem teve seu país
destruído há mais de um século. Então voltei e contei
aqui, e alguém ficou muito escandalizado e me disse:
- Mágoa? Mas de que? Já faz mais de cem anos!
Então vamos a um outro exemplo: pegue algum menino
brasileiro, talvez lá dos seus 12 anos, e lhe pergunte
se já houve Copa do Mundo aqui no Brasil. Todos eles
sabem, sabem que foi em 1950 no Maracanã, sabem que
perdemos no último minuto.
- E quem fez o gol? – pergunte ao menino.
- Um tal de Gighia.
- E foi triste para o Brasil?
Se foi? As crianças do Brasil parecem nascer sabendo
tim-tim por tim-tim o que aconteceu lá naquele dia de 53
anos atrás, e eu, além de também ter sabido desde
pequena, ainda tive o privilégio de saber do que
aconteceu da boca de alguém que estava lá no dia: o
nosso saudoso poeta Marcos Konder Reis estava, e não sei
como seu coração não se partiu. Lembro-me como ele
contava:
- Podia-se ouvir uma mosca voando dentre as 150.000
pessoas, depois do gol. Ninguém se mexia. 150.000
pessoas choravam em silêncio.
Não há como não se dizer que, depois de mais de meio
século, o povo brasileiro esqueceu-se daquele gol que o
Uruguai fez no finalzinho do segundo tempo do final da
Copa de 50, em pleno Maracanã. E foi só um golzinho. E
se fosse uma mortandade terrível, a destruição de uma
geração e de um país? Será que a gente esquece coisas
assim? Será que o Paraguai esqueceu? Com certeza não
esqueceu. Ele usa da sua zona franca para se apoderar de
um pouquinho do nosso dinheirinho, e você vai lá e pensa
que está agradando. Bobagem sua. Vá lá com tempo,
sente-se numa praça e ouça o que o povo paraguaio sente
pelo Brasil. Se um golzinho de nada a gente não
esquece...
Então, que vamos nós pensar, esperar, imaginar sobre o
Iraque? Por duas vezes em 12 anos ele é invadido e
humilhado do jeito que a gente vê todos os dias na
televisão. Lembro uma cena terrível da primeira invasão:
soldados iraquianos sendo trazidos prisioneiros por
soldados estadunidenses, e tentando agradá-los dizendo:
“Bush! Bush!” e fazendo sinal de positivo. (Era o Bush
Pai, ainda). Aquilo era uma humilhação que uma pessoa
jamais vai esquecer na vida. Adular seu algoz tentando
falar bem do Chefão... Nem uma pessoa nem um país não
esquecem. E ontem ainda vi na televisão cena de casa
sendo invadida na calada da noite pelos estadunidenses,
que aproveitaram para ir quebrando tudo. Quantos séculos
serão necessários para as emoções entrarem nos eixos por
lá, se a gente não consegue esquecer aquele mero gol de
Gighia?
Blumenau, 21 de Novembro de 2003.
Urda Alice Klueger
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