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Desejo ganha FEMI 2010
por Luiz Alberto Machado
A minha música “Desejo” nasceu de sopetão. Foi. Tudo começou
um dia quando a namorada me ligou de manhã com um convite
para o almoço.
Estava eu, na época, como redator geral de uma emissora de
rádio, carregado de trabalho até as pestanas. Coisa de
louco. Era que toda manhã era correria da grande, iniciada
pelas 4 da madrugada e só se concluía por volta do meio dia,
quando eu entrava no ar para apresentar outro programa
jornalístico. Era uma barra ter que preparar um jornal com
uma crônica diária que ia pro ar às 7 em ponto, elaborar
notícias para serem veiculadas de meia em meia hora, até
fechar o programa noticioso de meio dia. Estafante, porém,
tarefa deliciosa demais. Foi exatamente no meio dessa
loucura, que recebi a intimação com hora e local marcados e,
não tendo escapatória, aceitei. Afinal, era uma convocação
irrecorrível.
Lá, por volta das 13 horas, eu cheguei todo avexado, como
sempre. O suor correndo da tampa aos fundos aumentava mais o
meu vexame. Entretanto, era hora de relaxar da labuta diária
e tomar ciência da razão do convite. Foi quando de forma
inexorável e com cara de poucos amigos, a namorada tascou:
- Sabe que dia é hoje, Luiz Alberto Machado?
Ih! Pelo soletrado do meu nome completo, sabia que coisa boa
não viria para minha banda.
- Sei -, respondi.
- Então, me diga que dia é hoje?
- Sexta-feira!
- Sexta-feira de que mês?
- Sexta-feira, 18 de abril de mil novecentos e…. -, soltei
sem nem saber direito mesmo que ano era (acho que foi de 86,
87 ou 88, por aí, um desse).
- Certo. E o que isso representa, Luiz Alberto Machado? -,
cada vez que ela dizia meu nome de forma repuxada, enfática
e detalhada, mais eu percebia que o mar não estava para
peixe.
- Hum?!?
- Isso mesmo, senhor Luiz Alberto Machado. O que representa
o dia de hoje?
Gente, eu vasculhei todos os arquivos do cérebro e só me
vieram à memória as comemorações do Dia de Monteiro Lobato
e, por causa disso, o Dia Nacional do Livro Infantil, também
Dia do Amigo, aniversário de morte de Einstein e… (era me
lembrando e gaguejando em voz alta, e ela só sim, sim, sim….
e que mais?). Vixe, que aperto! Que mais? Será que esqueci
algo importante? Danada dessa minha ignorância, sempre
passando batido em tudo. Ô memória para me deixar na mão.
- Que mais? -, indaguei com a cara mais atarantada de quem
perdeu o bonde do mundo e com a sensação mais cínica de que
estava passando em branco por algo que não deveria jamais
farrapar.
- Sim, isso mesmo, senhor Luiz Alberto Machado.
- Peraí -, pedi arrego e fiquei matutando enquanto tapiava
com pedido de cerveja.
- Hum…. deixa ver, 18 de abril, é… e…. -, rebuscava até dos
registros acásicos para minha salvação naquele momento
cilada e ingerindo ligeiramente a cerveja. Que saia-justa! E
me arrependi de ter aceitado o convite na hora.
- Pois é, senhor Luiz Alberto Machado. Já que não se lembra,
vou refrescar sua cabecinha tola: hoje é meu aniversário. E
agora vou deixá-lo num mato sem cachorro: cadê meu presente?
Minha nossa! E agora? Procurei terra no chão, não encontrei.
Procurei um buraco para me socar e nada. Danou-se! Como sair
dessa, hem? Não deu outra. Com o riso mais amarelado
impossível, peitei:
- Surpresa! O seu presente está na mala do carro! Queria
mesmo ver a sua carinha de invocada mesmo! Peraí, deixa eu
tomar uns goles que já vou trazer o seu presente.
Fiz o que pude para empurrar com a barriga a situação. O que
eu tinha para dar de presente? Nada. Sair correndo para
comprar àquela hora só ia confirmar que eu me esqueci
bonitinho da data. Não podia. Tinha que sair do aperto de
qualquer jeito e tome gole e as catracas do quengo fumaçando.
Gente, que viela! Pensei comigo: agora tô fudido mesmo. E
tome gole de cerveja e blá blá blá.
- Luiz Alberto Machado não enrole, cadê meu presente?
As idéias davam nó no juízo quando arrisquei:
- Vou buscar, dois minutos só.
Virei o copo, saí do restaurante enquanto ela me acompanhava
com o olhar aos mínimos movimentos. Abri a mala do carro e
só tinha uns papéis, dois gravadores e o violão. Ih! E
agora? Fiquei remexendo na mala do carro como que estivesse
procurando algo. De vez em quando eu voltava o olhar para
ver a situação e ela lá vigilante, inexorável. Fiz que
procurava mexendo nas coisas, remexia tudo, revirava, mãos
na cabeça, coração saindo pela boca, garganta seca, a terra
rodando, a coisa ficando feia, quando resolvi pegar um
calhamaço de papel, um dos gravadores e o violão. Voltei
atrapalhado, papel voando, gravador se espatifando no chão,
voltei, peguei o outro, apanhei o rebentado e segui pra
mesa. Quando me sentei, ela cruzou os braços e fez a cara
mais reprovadora do mundo. Ora botava as mãos nos quartos
com ar nada açucareiro. Ah essa minha mania de estar sempre
pulando aperto. Sempre assim. Contudo, não dei o braço a
torcer e comecei a dedilhar o violão dizendo:
- Olha só, o seu presente está pronto, só que não decorei
ainda. Vou ver se me lembro detalhadamente. É assim….
E fiquei enrolando versos criados na hora, cantarolando uma
melodia que não existia e fazendo e refazendo tudo, sempre
dizendo que havia lembrado, eita, já esqueci, ah, lembrei de
novo, sim, é isso e assim foi.
Ao cabo de meia hora mais ou menos de peitica e peleja, eu
disse:
- É isso, seu presente é esse:
Quero ficar no seu coração
E assim poder sonhar
Toda aventura que pintar da emoção
Todo fervura que brotar da sua mão
Para iluminar a reticência que aprumou a minha vida
E um dia ser feliz e nada mais
Quero ficar no seu coração
E assim me agasalhar
Do frio impune que semeia a solidão
E feito imune repetir a sensação
Que vai para lua na volúpia mais fervida
E um dia ser feliz e nada mais
E quando o jeito de você virar absoluta adoração
Será o véu perfeito e a ternura abraçará minha ilusão
Quero o meu destino a confundir-se com o seu
E sermos um, o que a sina prometeu
E o que sobrar de nós será um ninho verdadeiro
E um dia ser feliz e nada mais
Gente, verdade! Do jeito que fiz, ficou. Enrolei tanto que a
música ficou prontinha com a letra e tudo. Ufa! Como estava
em processo de criação não deu para acompanhar as feições
que ela deve ter exposto na maior das desconfianças. Só sei
que ao terminar de cantá-la todinha (devidamente registrada
no gravador para não perdê-la e nem confiar na memória), eu
abri os olhos e flagrei um lindo sorriso dela.
- É pra mim? -, perguntou-me com o jeito de menina angelical
e com as faces risonhas de quem ganha um presente que
gostou.
- Sim, pra você. É sua.
- Não acredito!
- Verdade. Vou copiar a letra agorinha aqui para que você
guarde como o meu presente pro seu aniversário.
E copiei a letra numa folha, coloquei a data e assinei.
Pronto, estava dado o presente.
Passaram-se os anos, o namoro se foi, mas a música ficou.
Incorporei a letra nos meus livros publicados “Paixão
Legendária”, de 1991, e na antologia “Primeira Reunião”, de
1992. E eu sempre cantarolei a canção nas minhas modestas
apresentações musicais, em recitais, saraus, lançamentos e
por aí, até o dia, muito tempo depois, em que Derinha Rocha
pegou uma câmara e me filmou cantando a dita canção. A minha
perfomance não estava lá grande coisa, mas gostei e aceitei
a indicação de abrir uma página no YouTube. Por causa disso
a coisa pegou e com poucos dias tinha mais 1 mil e 500
visitas. Fiquei, claro, maravilhado com isso.
Por causa disso, em 2007 (ou foi 2008?), a Sônia Mello me
liga e diz que quer gravar essa e outras músicas minhas.
Sonia Mello? Exatamente a cantora que nos anos 70 e 80
gravou uma penca de long-playngs só com músicas de Roberto &
Erasmo Carlos. Eu mesmo já havia me apaixonado por ela só
por causa da capa de um dos discos em que ela está encostada
num SP2 (lembram? Era o carro dos meus sonhos
adolescentes!). Oxe! Então, um pedido desses a gente não
nega, né? Fiquei mais assanhado que pinto no lixo. E todo
atabalhoado fiz atender seu pedido. Peguei o violão, gravei
do jeito que saiu, passei pro computador e enviei duas:
“Desejo” e “Aurora/Minha Voz”. Fiquei com o coração na mão.
A expectativa, nossa! Um abismo de espera.
Quando ela falou comigo pedindo as músicas, ela me disse que
era para integrar um projeto de um cd que ela estava
gravando sob o título de “Destino” e que, entre outras
músicas, uma delas era uma feita pela respeitável dupla
Roberto & Erasmo exclusivamente para ela. Ora, estar ao lado
dos compositores mais aclamados pela população brasileira,
não era coisa para se relevar, não acha? Apois, foi. Quando
dei por nada na vida, recebo um mail e uma ligação dela.
- Luiz, dá uma olhada e me diz se Desejo ficou ao seu gosto.
Como é? Abri a caixa de mail e lá estava. Ouvi, ouvi,
re-ouvi e não me contive. Estava bem demais com o arranjo
que o Guga Mendonça fez. Nossa, dessa vez o presentação era
meu. E o melhor ainda estava por vir. É que ao invés de
“Destino”, ela nomeou seu disco “Desejo”, ou seja, a minha
música se tornava o carro-chefe do seu projeto. E Roberto &
Erasmo? Claro, não só inseriu a música deles, como também a
minha “Aurora/Minha voz”. Nossa, uma festa!
Em 2008, mais de 20 anos depois da criação da música, me
encontro com a Sônia Mello e ela me entrega o cd em mãos.
Fiquei tão abestalhado que falei pelos cotovelos, a ponto de
me esquecer uma coisa importante: de agradecer. Pois, foi.
Veja que sujeito mais melepeiro sou eu. Esqueci do
aniversário da musa, esqueci de agradecer também a
intérprete. Coisa de ingrato brabo.
Quando é agora, “Desejo” me proporciona mais um momento de
alegria: acaba de ser premiada com primeiro lugar no FEMI
2010 (Festival da Música Independente), promovido pelo
Projeto Sociocultural Vozes do Meu Brasil e do Clube Sua
Arte na Rede, que reuniu no Japão mais de 600 composições do
planeta, peneiradas para 60 avaliações, resultando em 20
escolhidas. Eita! Realmente foi. Estou todo ancho, chega me
sinto maior que o meu próprio tamanho (desce, desgraçado!).
Só me resta uma coisa: a minha gratidão pela interpretação e
iniciativa da Sônia Mello e do flagrante para criação dos
clipes (primeiro, o meu solo; depois, a homenagem à Mônica
Belucci com a canção na voz de Sônia) feitos pela Derinha
Rocha. Para vocês, meu muito obrigado.
Vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!!
www.luizalbertomachado.com.br
PS-1: Para quem quiser conferir o clipe é só acessarhttp://www.youtube.com/user/luizalbertomachado e
quem quiser baixar gratuitamente em mp3 é só acessar: http://tramavirtual.uol.com.br/artistas/luiz_alberto_machado
PS-2: Um lembrete: Lançamento
do DVD do meu espetáculo infantil Nitolino
no reino encantado de todas as coisas no
próximo dia 26 de agosto, a partir das 15 hs no Espaço
Cultutal Linda Mascarenhas, em Maceió. Confira os detalhes
no blog Brincarte.
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